A desinformação deixou de ser apenas um problema eleitoral. Em 2026, ela aparece como uma infraestrutura política que conecta ataques às instituições, manipulação por inteligência artificial, discurso de ódio e perseguição a quem defende direitos, territórios e políticas climáticas. O mesmo ecossistema que desacredita urnas, TSE e STF também enfraquece a confiança em dados científicos, em órgãos ambientais e em lideranças socioambientais.
O que o TSE mudou em 2026
O Tribunal Superior Eleitoral tratou o combate à desinformação como prioridade e atualizou as regras do pleito de 2026 para enfrentar deepfakes e propaganda manipulada por IA. As resoluções passaram a exigir aviso nítido em conteúdos eleitorais produzidos ou alterados por inteligência artificial, inclusive em interações com chatbots ou avatares, e vedaram conteúdos fabricados ou descontextualizados capazes de comprometer a lisura da disputa.
Entre as medidas centrais, o TSE proibiu a publicação, o impulsionamento e a republicação de conteúdos gerados ou manipulados por IA com imagem ou voz de candidaturas nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores à votação. Também vedou que provedores de IA recomendem ou favoreçam candidaturas. O endurecimento regulatório responde a um cenário real: segundo o Observatório Lupa, os casos de conteúdos falsos criados com IA cresceram 308% entre 2024 e 2025, de 39 para 159 ocorrências, muitas envolvendo Luiz Inácio Lula da Silva, Jair Bolsonaro e Alexandre de Moraes.
Ministério Público, plataformas e responsabilização
O Ministério Público Eleitoral reforçou esse movimento ao recomendar a plataformas digitais e provedores de aplicativos a adoção de medidas específicas para 2026. Entre elas estão canais acessíveis de denúncia, rotulagem de conteúdos gerados por IA, bloqueio de impulsionamento pago de materiais ilícitos e exclusão de perfis ligados à violência política, atos antidemocráticos e ataques à Justiça Eleitoral. O MP também defendeu multas de 5 mil a 30 mil reais para quem divulgar conteúdos fabricados ou manipulados com potencial de interferir no equilíbrio da disputa.
No mesmo eixo, o TSE firmou acordos com Meta, Google, TikTok, X, Telegram, LinkedIn, Kwai e com empresas de IA como OpenAI, Anthropic e ElevenLabs. Os memorandos preveem comunicação direta com o tribunal, detecção de redes de perfis falsos ou automatizados e identificação de conteúdos sintéticos. A sinalização é clara: big techs deixaram de ser tratadas como espaços neutros de circulação e passaram a ser vistas como agentes com responsabilidade sobre a integridade informacional.
O que a ONU diz sobre IA, clima e democracia
No plano internacional, a ONU vem consolidando o entendimento de que integridade da informação é condição para democracia e para governança climática. O informe do secretário-geral, Gutierrez, na última semana, sobre integridade da informação nas plataformas digitais e os Princípios Globais defendem transparência algorítmica, responsabilização das plataformas e salvaguardas para impedir o uso da IA generativa na manipulação do debate público.
Esses documentos alertam que a desinformação atinge desproporcionalmente grupos vulneráveis e compromete a capacidade das sociedades de deliberar sobre clima, energia e meio ambiente. Quando plataformas priorizam conteúdo conspiratório e anti-ciência, elas não afetam apenas eleições: também corroem a confiança em políticas de mitigação, adaptação e transição energética.
O mesmo ecossistema que ataca a urna ataca o clima
No Brasil, campanhas persistentes de desinformação sobre urnas eletrônicas, TSE e supostas fraudes eleitorais caminharam lado a lado com narrativas que desacreditam dados de desmatamento, atacam Ibama e ICMBio e apresentam políticas socioambientais como ameaça à soberania nacional. Jair Bolsonaro ocupou lugar central nesse ambiente como figura pública associada à disseminação de narrativas falsas sobre o sistema eleitoral e à retórica de ataque a órgãos e políticas ambientais.
O negacionismo eleitoral e o negacionismo climático compartilham técnicas e infraestrutura: canais fechados, perfis automatizados, influenciadores ideologicamente alinhados, monetização por engajamento e linguagem moralizante. Em ambos os casos, o objetivo é produzir desconfiança, deslegitimar instituições e transformar debates públicos em guerras morais.
Quem vira alvo
Levantamento da Climate Action Against Disinformation, de 2024, repercutido por InfoAmazonia e Netlab/UFRJ, identificou mais de 65 mil publicações no X voltadas a desacreditar discursos pró-clima e cerca de 34 mil postagens com ataques ofensivos a pessoas e ações ligadas ao ativismo climático. Termos como “ecoterroristas”, “culto climático” e “lunático climático” foram usados para retratar ativistas como fanáticos ou inimigos sociais.
No Brasil, esse ambiente atinge nomes concretos. Marina Silva aparece entre as personalidades mais atacadas, alvo de narrativas que a associam a sabotagem econômica, radicalismo ambiental e submissão a interesses estrangeiros. Sonia Guajajara e outras lideranças indígenas e comunitárias também foram enquadradas em campanhas que as descrevem como invasoras, oportunistas ou obstáculos ao progresso.
Pesquisa global repercutida em 2025 indicou que 92% dos ativistas ambientais entrevistados relataram sofrer violência online, incluindo ameaças, campanhas coordenadas de difamação e exposição de dados pessoais. No Brasil, esse assédio não ocorre no vazio: ele se conecta a um país que permanece entre os mais perigosos do mundo para defensores ambientais. O ataque digital, nesse contexto, funciona muitas vezes como antecâmara de perseguição judicial, isolamento político e violência territorial.
Democracia ambiental depende de informação confiável
A democracia ambiental exige acesso à informação, participação pública e capacidade de defender o território sem ser difamado, ameaçado ou criminalizado. Quando comunidades afetadas por mineração, petróleo, gás, fracking ou grandes obras são retratadas digitalmente como inimigas do desenvolvimento, a desinformação passa a funcionar como tecnologia de silenciamento.
É nesse contexto que o Manual de Segurança e Proteção aos Ativistas, Ecologistas, Povos Originários e Comunidades Tradicionais, elaborado no âmbito do Programa Defensores dos Defensores, ganha relevância pública. O documento trata ameaças digitais, jurídicas, simbólicas e físicas como partes de um mesmo contexto de risco e organiza ferramentas de autoproteção, análise de risco e proteção coletiva. Com lançamento previsto para agosto de 2026, o manual busca traduzir metodologias de organizações como Front Line Defenders, Protection International, Justiça Global, Artigo 19 e Instituto Igarapé para a realidade de ativistas dos diversos territórios brasileiros.
Em 2026, o desafio da democracia já está colocado. Justiça Eleitoral, Ministério Público e organismos internacionais tentam impor limites ao uso abusivo de IA, plataformas e campanhas de desinformação. Ao mesmo tempo, jornalistas, ativistas, comunidades e defensores seguem enfrentando um ambiente em que mentira, ódio e criminalização funcionam como armas políticas baratas e eficazes. A disputa não é apenas sobre o que é verdadeiro. É sobre quem pode falar, quem pode ser ouvido e quem será empurrado para fora do debate público antes mesmo de conseguir participar dele.



